Socialização de Cães: o Que a Creche para Cães Faz e o Que Não Faz

Quando o tutor de um cão de cinco anos nos diz que quer socializá-lo, está a pedir uma coisa que a biologia já não concede. Não daquela maneira. A socialização, no sentido técnico do termo, tem prazo, e fechou há muito tempo.

Isto não é má notícia, e não significa que a creche para cães seja inútil para adultos. Significa que faz outra coisa, com outro nome. Quem lhe promete socializar um cão feito, numa creche para cães ou num hotel para cães , está a vender-lhe uma palavra em vez de um serviço.

A janela fecha por volta das doze semanas

Os trabalhos fundadores são de Freedman, King e Elliot, na Science em 1961, e de Scott e Fuller, quatro anos depois. Ambos situam o período sensível de socialização entre as três e as doze semanas, com extensão até às catorze. É a fase em que o cachorro se aproxima do novo em vez de fugir, e em que o conhecido passa a ser normal para o resto da vida.

Convém ressalvar o que os manuais omitem: essas experiências foram feitas por isolamento. Uma revisão sistemática recente nota que é impossível separar o dano do isolamento do benefício da exposição. Sabemos que privar um cachorro faz mal. Não sabemos qual a dose exata de exposição que faz bem.

O que resulta disto é simples. A creche para cães tem um efeito num cachorro de dez semanas que nunca terá num cão de cinco anos. E o hotel para cães, esse, não tem efeito nenhum sobre isso.

Vacinas e socialização não são inimigas

Aqui está a contradição que paralisa metade dos tutores. O veterinário manda esperar pelas vacinas todas. O treinador diz que às dezasseis semanas já é tarde. Ambos têm razão, e a resolução existe desde 2008.

A sociedade americana de comportamento animal veterinário defende, em posição oficial, que a socialização deve começar antes de o esquema vacinal estar completo. Recomenda aulas desde as sete ou oito semanas, com uma condição: uma dose de vacina administrada sete dias antes, e desparasitação feita.

O argumento é frio e decisivo. Problemas de comportamento, e não doenças infeciosas, são a principal causa de morte em cães com menos de três anos. Um cachorro mal socializado corre mais risco de acabar abandonado do que de apanhar parvovirose numa creche para cães que verifica boletins, ou num hotel para cães que faz o mesmo.

Não é o mesmo que levá-lo ao jardim público. É ambiente fechado, cães de estado vacinal conhecido, grupos pequenos. A distinção é tudo.

O que a creche para cães faz a um cão adulto

Não o socializa. Habitua-o.

Habituação é deixar de reagir a um estímulo que se repete sem consequência. Contracondicionamento é trocar a associação: o que era ameaça passa a anunciar coisa boa. São processos distintos da socialização, funcionam em qualquer idade, e são lentos.

Um cão adulto que passa o dia numa creche para cães bem gerida ganha exercício, previsibilidade e cansaço bom. Ganha também, e isso mede-se, menos sinais de stress. Um estudo com cães alojados aos pares encontrou menos lambidelas de focinho, menos gemidos e maior descida do cortisol face aos que dormiam sozinhos.

O mesmo estudo, porém, não detetou melhoria nas competências sociais entre cães. Companhia acalma. Companhia não ensina. Se o seu cão rosna a outros cães, pô-lo num grupo grande não o corrige, e o hotel para cães em agosto muito menos.

Quando o problema é reatividade

O caminho não é a creche para cães, é o treino canino primeiro e a integração depois. Avaliamos, trabalhamos a distância de conforto, e só então introduzimos o grupo. Um patudo educado é um patudo respeitado.

Quando o problema é energia

Aí a creche para cães resolve quase sozinha. Cão cansado não destrói o sofá, e chega ao hotel para cães sem a energia acumulada de um mês.

Porque isto importa antes do hotel para cães

Um cão que passa o ano em grupo entra noutro registo quando chega o hotel para cães em agosto. Não porque o hotel para cães o socialize não socializa, mas porque nada ali é novo para ele.

O contrário também é verdade, e vale a pena dizê-lo com clareza. Um hotel para cães em época alta é o pior sítio do mundo para um cão aprender a conviver. Está cheio, está cansado, está longe de casa. Aprende-se em fevereiro, na creche para cães, não no hotel para cães em agosto.

Marcar uma avaliação

Se tem um cachorro entre as oito e as catorze semanas, o relógio corre e dizemos-lho sem rodeios. Traga-o com uma dose de vacina e sete dias de intervalo, e comece pela creche para cães, não pelo hotel para cães.

Se tem um cão adulto, esqueça a palavra socialização e diga-nos o que quer resolver: reatividade, energia a mais, ansiedade quando fica só. Três problemas, três respostas, e nenhuma se despacha num folheto.

Venha cá, traga o seu cãopanheiro, e vemos juntos em que grupo ele encaixa ou se ainda não encaixa em nenhum. Só depois disso faz sentido falar de hotel para cães.

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